Desfocamo-nos perante o mundo.
Eternos seres desfocados.
Mortos.
Enterrados.
Recriados em pequenos paraísos paralelos.
Onde deambulamos, imaginados.
Sozinhos, belos.
Desfocamo-nos perante o mundo.
Perdidos seres de miséria que fomos.
Perdidos na ambição frágil que tivemos.
Estremecemos perante os ecos longínquos
Dos nossos entes defuntos.
E recriamos, orgulhosos, memórias infelizes,
Histórias impossíveis,
Silêncios desesperados.
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
domingo, 31 de outubro de 2010
Naftalina
Espalhei pelo armário - escrupulosamente - as bolas de naftalina. Nunca pensei que começasse a cheirar a velha tão nova.
sábado, 23 de outubro de 2010
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Os Dias
Absortos são os dias em que vivo
É a luz que me fustiga
Por não ser mais nem menos que os outros todos
Por ser simplesmente igual e paradoxalmente inconformada.
Anestésica é a dor que me dá na alma e que se espalha velozmente por todo o resto que me pertence e me transcende.
Para que eu seja um pouco de anestesia também para além da dor que me dá gozo infligir.
Odeio a multiplicidade de espaços onde me deito,
A unicidade dos seres que tentam à força de amor me fecundar,
A diversidade de odores que me perfumam enquanto espreito e procuro
Um futuro melhor ou talvez o mesmo presente um pouco mais garrido.
Aplaudo os significados e os significantes de todas as insignificâncias
Que me fazem chorar, rir e talvez sonhar.
Sou tudo um pouco menos que todos os restos que deixo escrupulosamente no canto do prato.
Se amo, é porque toda a envolvente me diz que não há nada mais interessante para fazer.
Se não sou correspondida, mais uma razão tenho para beber um copo de vinho.
(por falta de imaginação, volto a publicar este velhinho post. Desculpem-me aqueles que já o conhecem)
É a luz que me fustiga
Por não ser mais nem menos que os outros todos
Por ser simplesmente igual e paradoxalmente inconformada.
Anestésica é a dor que me dá na alma e que se espalha velozmente por todo o resto que me pertence e me transcende.
Para que eu seja um pouco de anestesia também para além da dor que me dá gozo infligir.
Odeio a multiplicidade de espaços onde me deito,
A unicidade dos seres que tentam à força de amor me fecundar,
A diversidade de odores que me perfumam enquanto espreito e procuro
Um futuro melhor ou talvez o mesmo presente um pouco mais garrido.
Aplaudo os significados e os significantes de todas as insignificâncias
Que me fazem chorar, rir e talvez sonhar.
Sou tudo um pouco menos que todos os restos que deixo escrupulosamente no canto do prato.
Se amo, é porque toda a envolvente me diz que não há nada mais interessante para fazer.
Se não sou correspondida, mais uma razão tenho para beber um copo de vinho.
(por falta de imaginação, volto a publicar este velhinho post. Desculpem-me aqueles que já o conhecem)
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Deixo aqui Saudades
Deixo aqui saudades, na rua em que caminho e onde me é possível distinguir o fumo das chaminés do fumo das castanhas acabadas de assar. Deixo aqui saudades, num parapeito ao sol de tarde sujeito, onde vagueiam silhuetas felinas e rostos talhados pelos anos que passam. Onde se debruçam os cabelos brancos que - escassos e resistentes - enaltecem e reinventam uma distante juventude.
Deixo aqui saudades, do Outono das nossas vidas, da pessoa que fui, da pessoa que teimo em ser e da pessoa que um dia serei. Deixo aqui saudades, no conforto de um abraço dado por uns grossos braços de lã. Onde se respira relva acabada de cortar, onde se é atacado pela ternura de um grupo de petizes nos seus bibes, de par em par. Deixo aqui saudades, onde o frio se confunde com o aconchego e o aconchego se funde com o apego que tenho à terra que um dia irei deixar.
Hoje aprendi a escrever saudade: tem sete letras e mora em todo o meu coração.
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Tentativas
Falhei-me em tentativas. Repetidas. Só mais uma, dizia eu. E sempre, sempre a falhar.
Já as flores que cheirava, nessas primaveras férteis da minha infância, cheiravam a esgotos, a putrefacção. Fingia-lhes admiração, suposta capacidade que nunca possuí.
Algures no tempo, falhei também um número certeiro que me dava direito ao jackpot. Passando-lhe ao lado, encontrei gatos pretos e espelhos partidos. E, sobrevivendo-lhes, fugi-lhes passando debaixo de uma escadaria, agarrada a um número treze inscrito numa ferradura.
E quem me esperava do outro lado? O vácuo, sorrindo trocista ao ver-me tropeçar.
Cristina morreu. Caiu no vácuo ao pensar q pisava apenas mais uma folha seca desse Outono em que viajava. Mais uma vez. Sozinha e sem amparo.
Cristina morreu, folheando o final dum livro emprestado, com outro por estrear na mão.
Já as flores que cheirava, nessas primaveras férteis da minha infância, cheiravam a esgotos, a putrefacção. Fingia-lhes admiração, suposta capacidade que nunca possuí.
Algures no tempo, falhei também um número certeiro que me dava direito ao jackpot. Passando-lhe ao lado, encontrei gatos pretos e espelhos partidos. E, sobrevivendo-lhes, fugi-lhes passando debaixo de uma escadaria, agarrada a um número treze inscrito numa ferradura.
E quem me esperava do outro lado? O vácuo, sorrindo trocista ao ver-me tropeçar.
Cristina morreu. Caiu no vácuo ao pensar q pisava apenas mais uma folha seca desse Outono em que viajava. Mais uma vez. Sozinha e sem amparo.
Cristina morreu, folheando o final dum livro emprestado, com outro por estrear na mão.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Não te escrevo desde ontem
Não te escrevo desde ontem. Desde o adormecer fingido do meu pesar. Desde as frases escritas e esborratadas naquele papel amarrotado, depositado teimosamente nas tuas mãos. Não te escrevo desde que nasci, pequena e silenciosa numa cidade que nunca mais vi. Não te escrevo desde o tempo que era outro, bem melhor do que aquele que me assalta e me leva as horas que tanto gostaria de passar em ti. Não te escrevo desde o fracasso de te ter escrito e não me teres decifrado, nem uma vírgula de suor.
Não te escrevo desde ontem, a última vez que te vi. Não te escrevo desde ontem e aprisiono palavras desfiguradas, certa de que nunca irão chegar a ti.
Não te escrevo desde ontem, a última vez que te vi. Não te escrevo desde ontem e aprisiono palavras desfiguradas, certa de que nunca irão chegar a ti.
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Que raio...
... de jornalismo que se anda a praticar em Portugal!
Não bastavam já os escandalosos erros ortográficos nos rodapés dos telejornais, que me envergonham e me provocam sensações de vertigem e ataques de pânico, agora também os factos são pouco factuais.
"The Cure no arranque do Festival Paredes de Coura", foi a notícia que li hoje no rodapé dum telejornal a abarrotar de incêndios e futebolistas. Ainda pensei que tinha lido mal, mas ela, a notícia, lá aparecia uma e outra vez a rodopiar, seduzindo-me e enganando-me, a sacana! Foi por pouco, muito pouco, que não anunciei a minha partida de emergência para o norte do país.
Já de malas feitas, beijinhos de despedida dados, mas ainda antes de me dirigir à bilheteira da CP, decidi averiguar na internet o cartaz oficial deste festival, não fossem uns quaisquer Depeche Mode também fazerem parte do pacote musical. Da consulta, resulta uma agradável surpresa: The Cure não irá arrancar nada e, o mais semelhante, são uns The Cult, a quem não presto culto nenhum (precisava de pelo menos dois posts para divagar sobre esta banda).
Os portugueses, que já praticavam um divertidíssimo jogo à hora das refeições chamado " 'Bora lá encontrar a palavra que está bem escrita no rodapé do noticiário", vão ter mais adrenalina com o upgrade do mesmo: " 'Bora lá saber se a palavra que está bem escrita pertence a uma notícia verdadeira".
A todos os pantomineiros deste país, deixo o conselho de uma pantomineira-amiga: quando quiserem dar credibilidade a uma mentirinha contada aos vossos amigos, o melhor não será - definitivamente!! - dizer que viram nas notícias, mas antes: "É mesmo verdade, malta! Foi a Dona Rosa, cabeleireira da minha mãe, que me contou!!"
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Gostava que me lesses a mente e me coçasses as costas, não por esta ordem sequer. Que me lesses os lábios e me voltasses a amar. Que me arrepiasses a espinha sem sequer te aperceberes.
Se te prouver, leva por aí a minha alma aos trambolhões, abandona-a descalça na areia quente da praia, grita-lhe um palavrão. Ela é tua, nunca minha.
E assim será, ou teria sido, acaso soubesses ler-me a mente, ler-me os lábios e tocar-me onde me dói.
terça-feira, 13 de julho de 2010
Escuro
Está escuro cá dentro e tenho-me dentro lá fora. Onde me detenho, assustada, como se todo o nada existisse mais do que tudo em mim. Tacteio o mundo e descubro que não tenho tacto, nem olfacto e que cega, de mãos atadas, revejo a dor dos sentidos de quem os tem.
sábado, 26 de junho de 2010
Crise
Da crise, não se fala. Mal são ditas as primeiras letras, alguém muda bruscamente de assunto. Pior, é que tudo o resto de que se possa falar, entre cigarros e amigos vai parar sempre ao mesmo, por mil e uma voltas que sejam dadas lá vem ela: a crise.
Há uma crise que é acompanhada sempre pelo mesmo adjectivo: generalizada. Juntam-se-lhe os valores, as finanças, os empregos, as tristezas e obtém-se o pacote completo. É o constante contar que nada está bem, quando há o esquecimento constante de que se está entre amigos, entre cigarros e que a crise, seja de que tamanho for, ou de que credo ou cor, não conseguiu enfraquecer as amizades e os amores, quanto mais apagar as beatas já meio esborrachadas nos cinzeiros.
Mas de crise não se fala. Fala-se apenas do desemprego, da falta de dinheiro, do futuro negro que se avizinha ali mesmo ao lado, ali mesmo à esquina. Crise, a palavra, é para os telejornais e para os políticos. Uns comprados diariamente, outros eleitos por sufrágio universal. Ambos levianamente, claro está.
Há uma crise de ideias. As conversas estancam no mesmo. Do lado pessimista, a crise. Do lado optimista, o futebol. Se por malfadado acaso, alguém não gosta de sua alteza desportiva, fica-se meia-hora (ou o resto do dia) em silêncio e depois retoma-se o outro e único assunto principal, que envolve sempre a decadência social que supostamente se vive.
Há uma crise que se esquece dos olhares bonitos, das mãos que se dão. Há uma crise cega que não consegue perceber que o mar cheira a mar, que o céu é azul como sempre, que os pólens trazem a promessa de novas e mais belas flores. Há uma crise que se esquece que a chuva rega, que o sol dá vida. Há uma crise que não aprecia abraços, que não pensa nos entes queridos. Há uma crise que perdeu completamente os sentidos e negligencia um almoço de domingo acabado de fazer, um copo de vinho pronto a brindar. Há uma crise que não percebe que um corpo molhado e salgado é mais belo que outro qualquer que apareça esculpido nas primeiras páginas desses jornais que só vendem crises.
Há um crise que ofusca. E dessa tenho medo.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Ela
Ela corre. Ela corre sempre. Em busca de algo. Ou em fuga. Os anos passaram e as memórias, vingativas e penosas, persistiram em acompanhá-la para onde quer que fosse. Sabia-se sábia, mas não possuía sabedoria suficiente para fugir ao passado do qual tentava escapar. O passado acompanhava-a. O passado dormia com ela e desenhava-lhe sonhos pesados. Pesadelos. O passado brincava com ela. O passado dominava-a e devolvia-lhe todas as personagens que compunham o enredo desse triste e longo tempo ido. Tinha sido uma sereia.
Ele
Ele caminha. Há ali perto um balneário público onde poderá tomar um banho. Há por ali perto, também, alguém que lhe oferece um café e um bolo. Há por ali as saudades de alguém ausente. Dele próprio que jaz no passado. Um corpo transpirado implorando paz. Uma janela aberta com um cortinado esvoaçante tentando fugir. Um vulto feminino. Um fulgor masculino. Há por ali perto essa memória de ter sido ontem, e não antes de ontem, alguém guerreiro armado nos braços de alguém. Barricado nas coxas da sua fêmea. Alguém que vence a batalha que travou uma noite inteira ou até quando foi possível ter a persiana corrida e a ilusão dessa escuridão sussurrada em tempos de guerra. E não foi capaz.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Era eu
Era eu quem pisava espelhos partidos, contrariando o compasso do tempo, revertendo o caminhar, regressando ao princípio, voltando a pisar.
quarta-feira, 28 de abril de 2010
segunda-feira, 19 de abril de 2010
segunda-feira, 12 de abril de 2010
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