Nada para dizer. Nada para falar. Nada para contar. Nada para soletrar. Nada para difamar. Nada para gozar. Nada para ostentar. Nada para confessar. Nada para esconder. Nada para rir. Nada para chorar. Nada para apontar. Nada para segredar. Nada para rimar. Nada para aborrecer. Nada para enojar. Nada para fingir. Nada para reclamar. Nada para duvidar. Nada para enganar. Nada para olvidar. Nada para enternecer. Nada para dizer.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
À menina que habita os meus sonhos, vou dizer que o Papão já não tem mais fome, que os medos estão todos fechados a sete-chaves numa gruta distante. Vou dizer-lhe que o sol derrete os monstros e que as brincadeiras repelem os maus. Não lhe vou mentir, porque é tudo verdade.
E ela, finalmente, poderá percorrer o mundo na sua bicicleta vermelha.
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Grãos de Areia
O amor que lhe tinha era tanto quantos os grãos de areia que fechou na sua mão naquele longínquo dia, naquela longínqua praia. Tentou contá-los, um a um. Embebedou-se com o brilho desse punhado de milhares de milhões de grãos de areia e percebeu-os doutra maneira, ali mesmo enquanto os observava. Eles eram a eternidade que ele nunca poderia alcançar. Eles eram os anos que irremediavelmente ficavam por viver até ao fim da eternidade. Eles eram os curiosos e brilhantes seres que habitavam o mesmo planeta que ele, mas também outras galáxias, e que ele jamais iria conhecer. Eles, pequeninos e infinitos, eram mais do que aquilo que alguma vez viria a ser. E uma gaivota riu-se.
Passou um Verão inteiro, mergulhado em grãos de areia, enquanto ela, sua adversária, bronzeava o corpo já moreno e lambia, secretamente, o sal parasita que se depositava nos seus braços de sereia. Ele amava-a, mas tinha descoberto que mais importante que esse amor infinitamente belo eram os grãos de areia. Esses tais que o metiam a pensar e a engendrar esquemas matemáticos para escapar à mortalidade humana que desprezava. Ele podia ser uma hipótese eterna. Ele podia ser um quebra-cabeças que milhares de milhões de homens, tão minúsculos e interessantes quanto os seus grãos de areia, iriam estudar e nunca, em parte alguma das suas contas, iriam perceber.
Desafiaria toda a ciência e até o próprio e hipotético Deus, ser omnipresente a quem recorria quando não tinha sequer dinheiro para pagar a uma prostituta por um quarto de hora ou uma hora num quarto. Tarde demais. Os grãos fugiram-lhe por entre os dedos. A sua sereia, seca e salgada, aconchegou-se e adormeceu e sonhou com ele. E ele viu e ouviu tudo e compreendeu: era estar ali, no melhor dos melhores momentos da sua vida, ou era partir de encontro à eternidade.
Anos confusos e escuros passam-lhe pelos olhos e quase esquece essa história da praia. Lava-se com água morna e um sabão azul e branco. Veste roupa interior lavada e há quem lhe ofereça umas peúgas novas e quentes. Faz a sua rotina, desde o banho ao pequeno-almoço. Esquece que já foi alguém que esteve perto de descobrir a chave da imortalidade. Ofende esse mesmo ser omnipresente que outrora desafiou. Depois arrepende-se e pede-Lhe desculpas e oferece-se para Lhe limpar a casa.
O mundo tornou-se numa aldeia grande, onde toda a gente o conhece e despreza. Conclui que o seu velho fato já a nada nem ninguém impressiona. Mete nojo aos mais novos e pena aos mais educados. Mas ninguém lhe oferece mais do que um olhar expressivo. E é aí, perante esses olhares de nojo e pena expressos, que se recorda dela e se arrepende para o resto dos seus dias. De tudo. Dele próprio. Do nojo que se tornou. Do banho diário e da caridade cristã. Da devoção que ele próprio teve por esquemas erráticos e contas envenenadas. De nunca a ter olhado nos olhos. De nunca ter recolhido dos seus lábios a simplicidade do sentimento mais complicado e cobiçado por todos: o amor.
Passou um Verão inteiro, mergulhado em grãos de areia, enquanto ela, sua adversária, bronzeava o corpo já moreno e lambia, secretamente, o sal parasita que se depositava nos seus braços de sereia. Ele amava-a, mas tinha descoberto que mais importante que esse amor infinitamente belo eram os grãos de areia. Esses tais que o metiam a pensar e a engendrar esquemas matemáticos para escapar à mortalidade humana que desprezava. Ele podia ser uma hipótese eterna. Ele podia ser um quebra-cabeças que milhares de milhões de homens, tão minúsculos e interessantes quanto os seus grãos de areia, iriam estudar e nunca, em parte alguma das suas contas, iriam perceber.
Desafiaria toda a ciência e até o próprio e hipotético Deus, ser omnipresente a quem recorria quando não tinha sequer dinheiro para pagar a uma prostituta por um quarto de hora ou uma hora num quarto. Tarde demais. Os grãos fugiram-lhe por entre os dedos. A sua sereia, seca e salgada, aconchegou-se e adormeceu e sonhou com ele. E ele viu e ouviu tudo e compreendeu: era estar ali, no melhor dos melhores momentos da sua vida, ou era partir de encontro à eternidade.
Anos confusos e escuros passam-lhe pelos olhos e quase esquece essa história da praia. Lava-se com água morna e um sabão azul e branco. Veste roupa interior lavada e há quem lhe ofereça umas peúgas novas e quentes. Faz a sua rotina, desde o banho ao pequeno-almoço. Esquece que já foi alguém que esteve perto de descobrir a chave da imortalidade. Ofende esse mesmo ser omnipresente que outrora desafiou. Depois arrepende-se e pede-Lhe desculpas e oferece-se para Lhe limpar a casa.
O mundo tornou-se numa aldeia grande, onde toda a gente o conhece e despreza. Conclui que o seu velho fato já a nada nem ninguém impressiona. Mete nojo aos mais novos e pena aos mais educados. Mas ninguém lhe oferece mais do que um olhar expressivo. E é aí, perante esses olhares de nojo e pena expressos, que se recorda dela e se arrepende para o resto dos seus dias. De tudo. Dele próprio. Do nojo que se tornou. Do banho diário e da caridade cristã. Da devoção que ele próprio teve por esquemas erráticos e contas envenenadas. De nunca a ter olhado nos olhos. De nunca ter recolhido dos seus lábios a simplicidade do sentimento mais complicado e cobiçado por todos: o amor.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
Tudo se compõe
Tudo se compõe, agora que dois estranhos se abraçam a meio de uma viagem. Propósito: amparar as lágrimas de ambos. Resultado garantido, sem reclamações.
Tudo se compõe. O mendigo que te metia nojo, revelou-se teu amigo. Revelou-te segredos e também algumas duras verdades. Falou-te da árdua tarefa que é perceber sentimentos através dos rostos cansados que deambulam por aí, ao final do dia.
Tarefa estranha. Estranho ser. Afinal, o seu olhar esgazeado, significava apenas A Procura. Todo o seu sangue derramado, não significava nada. Ferimentos ligeiros, escandalosos.
Tudo se compõe. A linha do metropolitano sorri-te. Só a ti, a mais ninguém. A linha do metropolitano reconhece-te, aqui neste lugar ou noutra qualquer estação estrangeira. Seja qual for o teu percurso.
A linha sorri-te. Convida-te a saltar. Propõe-se engolir tristezas e esmagar problemas, os teus. E tu, aceitas. E, os estranhos que choram abraçados, assustam-se com o travar repentino da carruagem e abraçam-se ainda mais. E beijam-se.
Tudo se compõe. Tudo, nada significa. Grito de socorro.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Recomeçava do Zero
Começava do zero, sempre que se afundava em matemáticas. Recomeçava do zero, mas a tendência para esquecer os prefixos era óbvia. Afundava-se em questões gramaticais, também. Questões ortográficas. Questões semânticas.
Inclinava-se para as questões, de todas as formas e feitios e esquecia que estava apenas a recomeçar do zero. Somava, multiplicava, dividia e acabava subtraído. Subtraído até ao tutano. Até ser nada mais e nada menos que zero.
E congratulava-se de estar exactamente no meio de uma imaginária linha que separava o negativo do positivo, até ao infinito.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Há dias

Há dias em que não me apetece ler ou escrever, apenas olhar. Focar uma paisagem que me afecta ou transtorna, para depois desfocá-la e apreciá-la de novo.
Há dias, em que todas as imagens que valem mais que mil palavras, valem mais do que todo o significado da minha existência. E não precisam de ser fortes ou reais. Basta imaginar para logo me deter a contemplar.
Há dias, em que não me apetece ler ou escrever. Não me apetece trabalhar, nem tão pouco estar. Há dias em que me apetece somente olhar.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Nouvelle gothique
E agora, só preciso de vida. Depois de me ter deliciado na simulação da minha própria morte. Depois de ter sentido a sensação limpa de me banhar no charco do meu próprio sangue. Depois de me ter feito belos laços com as minhas vastas entranhas e de ter trincado tenros nacos dos meus próprios órgãos vitais. Depois de ter suspeitado que nada mais restava do meu corpo desfeito. Nessa suspeita, apercebo-me que afinal sobrou algo. Sobrou-me uma alma esfarrapada, mas viva. Uma alma exausta, mas sedenta de vida.
E agora, só preciso de vida. Nada mais do que vida. Empresta-me os teus pulsos. Estou pronta para regressar e não há pulsação melhor do que a alheia.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
É feriado. Chove.
É feriado. Chove. Encontro-me sentada a ver os carros que lá fora passam. A água que salta para o passeio. A água que salta para cima de outros carros. Lá alto no céu, quando a chuva abranda, voam gaivotas que se riem de nós, seres inferiores.
É feriado. Chove. Encontro-me sentada a ouvir os carros que passam velozes lá fora. A ouvir o som que a água faz ao ser projectada nos passeios e noutros carros. Oiço a chuva que cai lá do alto do céu. E, quando esta abranda, consigo imaginar belas gaivotas a voar e a mirar o que se passa cá em baixo.
É feriado. Chove. E eu apenas consigo ouvir e ver o que lá fora acontece. Colocando-me lá fora também. Molhada. Sonora. Voadora.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Aquele
Ela não conseguia percebê-lo. Deitava-se a seu lado, acendia-lhe cigarros e dava-lhe festas nos cabelos. Mas não era suficiente. Nada era suficiente, tratando-se ele dele mesmo. Aquele que não pestanejava perante o ódio. Aquele que não tremia perante o amor. Aquele.
Aquele que era insensível a todo e qualquer altruísmo circundante. Aquele que não queria prestar-se a semelhante papel.
Mas ela sabia: bastaria cair a primeira folha de um promissor Outono, para que todo ele se transformasse naquele outro ser. Destronado, desmascarado e fustigado por sentimentos nostálgicos que não conseguia apagar, revelar-se-ia humano perante a chuva miudinha e o agasalhar de um casaco há muito esquecido no bengaleiro.
E ela aguardaria esse momento para lhe lembrar que aquele que se disfarça nas fogueiras e nos gelos doutras estações, tem parte da vida por resolver no seu coração.
Aquele que era insensível a todo e qualquer altruísmo circundante. Aquele que não queria prestar-se a semelhante papel.
Mas ela sabia: bastaria cair a primeira folha de um promissor Outono, para que todo ele se transformasse naquele outro ser. Destronado, desmascarado e fustigado por sentimentos nostálgicos que não conseguia apagar, revelar-se-ia humano perante a chuva miudinha e o agasalhar de um casaco há muito esquecido no bengaleiro.
E ela aguardaria esse momento para lhe lembrar que aquele que se disfarça nas fogueiras e nos gelos doutras estações, tem parte da vida por resolver no seu coração.
domingo, 15 de novembro de 2009
Voltas
Não entendia como o mundo tinha dado voltas e tinha voltado ao seu lugar. Do costume. À hora marcada. Como sempre.
O pobre desgraçado, calcorreava as ruas e pedia cigarros a quem muito bem entendia pedir. Ninguém sabia. A cigarreira ia no bolso. Lado esquerdo, junto ao coração. Aí guardava religiosamente as suas cigarrilhas com suave aroma de baunilha. Aí tocava o crucifixo que pendia da corrente de ouro duvidoso, abençoando-as ao ritmo do seu caminhar.
O mundo e as suas voltas. Pensava. O mundo e as suas voltas que teimam e voltam a teimar. As coisas que passam de um hemisfério para outro. Os opostos unidos numa grande orgia glaciar. Pensava apenas, no mundo e nas suas voltas.
Crucifixo baloiçante. Cigarrilhas guardadas a cadeado de prata. Os cigarros alheios que sabem tão bem. As respostas tortas, os reprovadores soslaios. Todos juntos, nenhum mal lhe fazem. Concentra-se apenas na dor de pernas que tem. Nas subidas aqui. Nas descidas acolá. Nas corridas. Nas fugas.
O mundo foge de quem não lhe conhece os cantos. O mundo troca as voltas a quem não lhe compreende as voltas. O mundo é redondo, mas a rua que agora faz é plana. E aquela outra, também. O mundo não pode ser redondo. Não pode ter forma alguma. Deve ser abstracto.
Jornal gratuito na mão. Casaco desbotado. O pobre desgraçado encontrou um banco onde descansar. Procurou a cigarreira e sorriu. Falou para o Cristo da corrente de ouro duvidoso e, este último, concordou. Sabia que não estavam sozinhos, ele e os seus dois fiéis objectos. Sabia pelo cheiro que pairava no ar, que existia alguém por quem valia a pena continuar.
Levantou-se e não aguentou. Caiu, como se o mundo se tivesse voltado ao contrário e tivesse ficado de pernas para o ar. Morreu ali, a meio de uma passa numa cigarrilha com suave aroma a baunilha. A meio de uma conversa com um Cristo que não se fartava de baloiçar. Morreu antes de ter percebido que o mundo lhe tinha trocado as voltas.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Rammstein e Eu
Era eu uma 'chavala' de cabeça-rapada-em-Dezembro, ou estava prestes a fazê-lo, quando ouvi pela primeira vez Rammstein. Du Hast. Fiquei doida porque era mesmo aquilo que eu procurava: electrónica aliada a um som de peso, que não conseguia decifrar muito bem e que ainda hoje tenho dificuldade em classificar somente como industrial ou meter ao industrial um sufixo gótico.
Era eu uma 'chavala' de cabeça-rapada-em-Dezembro, nos seus píncaros ou estava prestes a fazê-lo, quando duas amigas - daquelas que só se encontram uma vez na vida e a quem agarramos a mão com tanta força que nos é difícil aceitar que um dia seguirão caminhos opostos aos nossos - me ofereceram o Senhsucht, álbum que ainda hoje me faz pular de alegria de cada vez que o meto a tocar.
Os anos passaram. O cabelo rapou-se finalmente em Dezembro, o piercing no sobrolho foi feito, o cabelo voltou a tombar pelos ombros, a cobrir-me as costas. O piercing saiu. O piercing voltou. E o cabelo, esse deixou-se crescer e cortou-se à medida das necessidades visuais e duma adolescência e idade adultas repletas de boa música e rodeada de bons amigos.
Dei as mãos a quem mas estendeu graciosamente e larguei as mãos de quem estava farto do calor das minhas. E, finalmente, chega a almejada oportunidade de os ir ver ao Pavilhão Atlântico, naquela que foi para mim - e para todos os outros que lá estiveram presentes - a noite mais quente desse distante Novembro.
Dessa noite recordo o calor que nos atingia, vindo dos lança-chamas e demais artefactos pirotécnicos usados em palco. Recordo um vocalista que esbanjou energia e um público que humildemente 'arranhou' alemão para poder retribuir, nem que fosse apenas cantando em uníssono refrões simples. Recordo um final extraordinário com um bote a passear-se na plateia, enquanto era tocada uma versão maravilhosa (há poucas meus caros, muito poucas assim!) do Stripped dos meus adorados Depeche Mode. Finalizou-se assim um fabuloso concerto e o tempo avançou com as suas horas, dias e...
... Os anos voltaram a passar, teimosos e sacanas. Recordou-se, durante o passar desses mesmos anos, em numerosas conversas de café, o bom que era repetir aquela experiência, do bom que foi aquele concerto para nós seres privilegiados e abençoados. E, o cabelo voltou a crescer, os piercings a mudar de lugar, os amigos a agarrar e a soltar-nos as mãos e tudo se repete: Novembro, Rammstein e a promessa de muito calor.
Foi no passado Domingo, que se repetiu um bom concerto. Um iniciar de espectáculo com um partir de um muro, que para muitos dos presentes simbolizou o próprio de Berlim, ou outros muros que lhe deviam seguir o exemplo. Para outros nada significou para além de mais uma excentricidade 'rammsteniana'.
Ouvi tudo o que queria ouvir, mas não vi tudo o que queria ver. Mesmo que a pouca distância do palco, este foi mais um concerto em que tive uma praga de cabeçudos à minha frente. Mas acho que aprendi a lição e se as botas militares com sola dupla não são suficientes, passemos aos sapatos de salto que as senhoras costumam usar. Ou cheguemo-nos mais à frente e coloquemo-nos inoportunamente à frente de pessoas com menos 20 centimetros que nós.
Não há muito a acrescentar: foi Novembro, foi Rammstein. Foi a energia de sempre, o espectáculo de sempre e a música que fica para sempre. Só nós vamos ficando mais velhos.
Para finalizar, deixo a música que ficou a faltar no alinhamento deste Domingo, mas que tenho ouvido em repeat enquanto atravesso o Martim Moniz. Prometo que não há nenhum trocadilho barato acerca desta zona de Lisboa e o nome da música! (como sou boazinha, deixo uma versão legendada em inglês)
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quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Caminho
Há quem, nos autocarros, ostente cartazes feitos de cartolinas, visivelmente danificadas pelo tempo, com palavras de ordem escritas a sangue. Dessas palavras de ordem, vou morrer aqui é o que mais se lê. Há quem implore um ombro onde chorar e há quem grite por um abraço ao final do dia.
Há quem, nos autocarros, se detenha nos vidros maravilhado com o seu próprio reflexo. Há quem mande sinais de vapor para o exterior. Há quem se contente com um S.O.S. em código morse.
Passo ao lado da paragem. Reconheço os rostos e os cartazes daqueles que estão prestes a começar mais uma viagem. Detenho-me num rosto triste que grita Quero atenção! e perco-me na imensidão dos olhos que me segredam eu já fui feliz.
Mas caminho. Caminho porque nada mais há a fazer. Caminho ao lado da estrada, por um estreito passeio mal empedrado. Já sem os meus velhos cartazes, abafo os meus gritos desassossegados e entrego as palavras de ordem a quem queira fazer uso delas.
Sei o seu caminho de cor - do autocarro e dos seus passageiros permanentes - e percebo que não preciso mais de empunhar cartazes e desafiar os rostos que lá longe espreitam essa estranha demonstração de humanidade, que lá em baixo observam perplexos essa estranha viagem.
Agora. Desde há muito e principalmente agora. Sei por onde vou. Sei quem sou. E se por algum infeliz acaso me enganar no caminho, o mais provável é ir parar a um velho atalho meu conhecido, daqueles onde um dia ousei perder-me e aquecer-me no fogo quente dos cartazes usados, das palavras gastas e dos rostos obcecados.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Bem e mal
Bem fica aquele que não quer ficar,
Mal parte aquele que não quer partir,
Bem espera aquele que soube esperar,
Mal desiste aquele que só soube desistir.
Bem e mal,
Quero partir com a promessa de voltar,
Quero ficar sem para sempre ter que ficar,
Quero esperar por aquilo que hei-de alcançar
E não quero desistir daquilo que não hei-de conseguir.
Para o bem e para o mal,
Para o bem e para o mal,
Para o mal que me faz o bem
E para o bem que me faz o mal.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Um Segredo
Promete que me guardas um segredo. Um segredo bem guardado, a cadeado. Um segredo desconfiado, das paredes que têm ouvidos, das línguas feitas de trapos. Segura-o com carinho, não o deixes escapar, não o deixes espalhar-se pelos sete ventos, pelos quatro cantos do mundo. Um segredo numa mão fechada ou numa boca fechada, nas tuas. Promete que mo guardas com a mesma convicção com que me aguardas. Com a mesma força com que fechas as mãos e a boca e prendes as coisas que me queres dizer. Promete-me um segredo no meu regaço. No teu abraço. No nosso sonhar.
Abriu a Época...
... Das ressurreições blogosféricas. Seguindo o exemplo do meu grande amigo Bruto, ressuscito aqui e agora o Coisas Gordas e Más, para que ele não se sinta o único ressuscitado da vizinhança.
A seguir, segue-se uma reunião de trabalho com o João (que pretexto maravilhoso para se almoçar num bairro típico de Lisboa!), para ver se juntos reanimamos o Delírios (blogue à base de textos de um e fotografias doutro).
Felizmente, o único blogue das imediações que não precisa de uma Páscoa fora de época é o meu querido Carapuça Productions, que está muito bem de saúde e ao qual aconselho várias visitas, porque uma só não chega.
Restabelecendo as funções vitais deste blogue, comemoro então aqui e convosco a abertura oficial da Época das Ressurreições Blogosféricas: cheers!!
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Pensava-me morta
Pensava-me morta. Quase morri. Bati certamente às portas da morte e, por sorte, ninguém atendeu.
Julguei-me então moribunda. Houve quem me desse a extrema-unção. Houve quem me chorasse aos pés da cama. Houve quem me tirasse medidas e até houve quem me encomendasse o caixão.
Encontrei-me adoentada, agasalhada com todos os cobertores que conheci. A cabeça a doer e o coração também. Os dias a quererem-se para lá das portadas sempre fechadas. Os lenços de papel a cobrirem o chão e a febre, sempre teimosa, a inundar-me os sonhos de imagens surreais.
E afinal... Afinal estava viva e só não me apetecia viver.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Percebi então que não nos basta o arrepio na espinha aparecer para que tudo o resto se resolva. Hoje guardo as palavras que não disse e reinvento-as de cada vez que encontro um vulto que se assemelha à última vez que te olhei, envergonhada por não ter coragem de to dizer. Hoje, busco em todos os recantos do nosso amor, as palavras que se disseram por engano, as palavras forasteiras. Procuro-as como se delas dependesse a minha salvação eterna. E mais não encontro senão um vago retrato do que nós poderíamos ter sido. E, irremediavelmente, não fomos.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Melhor que Peixe
O avô do Miguel sempre que bebia um bom conhaque dizia que era melhor que peixe.
Miguel, levou anos a perceber que o conhaque que o avô dizia ser melhor que peixe, simplesmente o era porque não tinha espinhas.
Até que um dia o pobre Miguel, já casado e com filhos, lembrou-se que existiam filetes, prontos a comer e sem sombra de espinhas.
Mas o avô já tinha morrido e desses tempos, apenas lhe restava uma garrafeira onde, curiosamente, não sobrava nenhuma garrafa de conhaque.
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